Diretora do Hospital Regional do Cariri revela bastidores no enfrentamento à pandemia da Covid-19

Legenda: Demostênia Coelho Rodrigues fala sobre os bastidores do Hospital Regional do Cariri durante a pandemia da Covid-19 - Foto: Divulgação

Atualmente, a média mensal de atendimentos Covid no HRC se assemelha ao índice de julho do ano passado, mês com maior número de atendimentos. O Hospital Regional do Cariri é uma das principais unidades do Interior, referência para 45 cidades. 

Em julho do ano passado, os olhos das autoridades sanitárias do Ceará estavam voltados para o Cariri, mais especificamente para Juazeiro do Norte. A maior cidade do Interior cearense era, à época, o epicentro da pandemia da Covid-19. Os casos se multiplicavam em assustadora velocidade - com mais de 250 casos por dia - e o sistema de saúde era desafiado para suportava a ampla pressão.

Para atender tantos infectados o Hospital Regional do Cariri (HRC) precisou se reinventar. Esse processo iniciado no ano passado seguiu de forma progressiva e contínua, dado que, após a redução da curva de contágio no segundo semestre do ano passado, logo em seguida teve início a segunda onda, com retorno do aumento dos casos de infectados. 

A unidade de saúde, referência para 45 cidades com uma população estimada em 1,5 milhão de pessoas, mais que dobrou o número de leitos e o quadro de funcionários teve incremento de quase 60%. Esse acréscimo é justificado pelo alto número de atendimentos.

De abril a julho do ano passado, foram 1.656 atendimentos Covid, dentre os quais cerca de 400 foram somente em julho, mês do pico. Entre agosto e setembro, os casos ensaiaram estabilização e, no início da segunda onda (outubro) até fevereiro deste ano, foram 752 atendimentos, cuja média mensal foi de 150. 

Esse número, no entanto, foi superado em um 95 dias. Entre março e maio, já são 796 atendimentos - média semelhante ao pico de julho do ano passado. Os números foram fornecidos pelo Hospital Regional do Cariri.

Ainda segundo a unidade, como agravante, além de os números atualmente estarem em tendência crescente, os atendimentos a traumas subiram diferente do que ocorrera em 2020.

Antes do início da pandemia, a média de atendimentos em traumas (exclusivamente oriundos de acidentes) era de 280. De março em diante, com o  lockdown, essa média caiu para 90.

Essa redução de atendimentos viabilizou a destinação de leitos antes dedicados aos traumas, para atendimento a pacientes infectados pelo novo coronavírus. Neste ano, com a média em 200 atendimentos ao mês, a destinação de leitos para Covid foi reduzida pela metade (25 UTIs). 

Diante dessa rotina frenética, com aumento de atendimentos Covid concomitante aos de traumas, os profissionais que atuam no HRC já se encontram extenuados. A constatação é de Demostênia Coelho Rodrigues, Diretora Geral da unidade. 

Para conhecer os bastidores do Hospital Regional do Cariri, o Diário do Nordeste entrevistou a Diretora que falou sobre os desafios encontrados na 1ª e 2ª ondas. Ela reconhece ainda que os profissionais estão cansados, revela queda em outros atendimentos - como captação de córneas, que chegou a ser suspenso no ano passado devido a uma recomendação do Ministério da Saúde - e detalha que os infectados da segunda onda chegam à unidade com estado de saúde mais delicado.

  • CONFIRA ENTREVISTA:

O HOSPITAL REGIONAL DO CARIRI (HRC) ATENDE A MAIS DE 40 CIDADES DO SUL DO ESTADO, ALÉM DE SER REFERÊNCIA PARA MUNICÍPIOS DE ESTADOS VIZINHOS. COMO FOI TER QUE CONCILIAR ESSA DEMANDA NATURALMENTE ALTA COM A PANDEMIA? 

O HRC é referência para 45 municípios da região Sul do estado, e por estar localizado na divisa com outros dois estados, acaba atendendo também pacientes de outras regiões, o que torna o combate a pandemia ainda mais desafiador, uma vez que nossos profissionais e leitos ficam bem divididos com a necessidade de atender em concomitante, o trauma e o AVC como referência, bem como outras situações que demandam a emergência 24h.

QUAIS AS PRINCIPAIS ESPECIFICIDADES NO COMBATE À PANDEMIA NA 1ª E 2ª ONDA? 

Na 1ª onda tivemos a especificidade de vivenciar o medo em enfrentar uma doença potencialmente contagiosa e letal e totalmente desconhecida até então. Na 2ª onda me parece estar sendo ainda pior, pois enfrentamos mutações do vírus por meio de novas cepas mais contagiosas e mais letais.

QUAL FOI O PERÍODO MAIS DESAFIADOR? QUAIS OS MOMENTOS MAIS CRÍTICOS QUE VOCÊS PASSARAM DESDE O INÍCIO DA PANDEMIA NO HRC?

Enfrentar o medo e o desconhecido na busca incessante de salvar o maior número de vidas possível é o maior desafio. Eu diria que diariamente vivemos momentos críticos, sobretudo quando nos deparamos com as inúmeras vidas perdidas pra essa doença, mesmo com todos os esforços das equipes médicas. 

Sim. Infelizmente os pacientes estão chegando a nossa unidade mais graves, o que demanda um maior tempo de internação, além de se apresentar numa faixa etária mais jovem e sem comorbidades.

HOJE, UMA DAS REGIÕES COM MAIOR SOBRECARGA NA ASSISTÊNCIA DA SAÚDE É A REGIÃO DO CARIRI. A SENHORA AVALIA QUE ESTE QUADRO AINDA SEGUE SE AGRAVANDO POR QUAL(IS) MOTIVO(S)?

Desde o início da pandemia, o  Governo do Estado vem fortalecendo toda sua rede de assistência à saúde, não só na Capital, mas também no interior. Mas apesar dos esforços, o vírus ganha força e se espalha de formas distintas nas diferentes regiões.

Entendemos que a única maneira de frear a disseminação da doença é manter as medidas de isolamento e segurança já conhecidas por todos. E essa é uma responsabilidade de todos nós enquanto cidadãos.

QUAL SERIA A IMPORTÂNCIA DE TER MAIS LEITOS OPERANDO NO HRC? 

Servir de retaguarda para o atendimento a pacientes clínicos e cirúrgicos, a exemplo do trauma que continua lotando nossos leitos. Os atuais 118 leitos de UTI são suficientes para atender a demanda natural (sem referência à pandemia). Vale salientar que o HRC na sua estrutura original era composto de 315 leitos, destes 50 de UTI (antes da pandemia).

Atualmente dispomos de 365 leitos, destes 118 de UTI, sendo 73 exclusivos para o tratamento da Covid, e os outros 45 de UTI geral para as demais patologias, incluindo o trauma e o AVC, nosso principal perfil. E sim, com todas as dificuldades do sistema público, não tínhamos uma fila de espera significativa para a demanda de UTIs em nossa região.

COMO A ROTINA DOS MÉDICOS FOI AFETADA NO COMBATE À PANDEMIA? ELES ESTÃO EXAUSTOS?

A partir do momento que nos deparamos com o medo e a ansiedade de combater o novo, isso gera uma necessidade de mudanças de rotinas e hábitos. Hoje, já dispomos de muitos protocolos e diretrizes, mas que só foram criados em meio a pandemia, como, por exemplo, as orientações de restrição de visitas e acompanhantes, o tratamento com os corpos após o óbito, dentre outras... 

Sim, estamos todos cansados. Porém, resistimos na busca diária de salvar o maior número de vidas possível.

EM RELAÇÃO AOS PROFISSIONAIS DA LINHA DE FRENTE, QUAL O PERCENTUAL QUE FOI ACOMETIDO PELA COVID? 

Desde o início da pandemia, não temos medido esforços no tocante aos treinamentos em serviço, principalmente no que se refere a paramentação e desparamentação de EPIs. Acreditamos que isto tenha colaborado para o nosso baixo índice de contaminação entre os profissionais em cerca de 30%, com apenas 7 internações e infelizmente um óbito. Hoje todos estão vacinados (D1 e D2).

EM RELAÇÃO AOS PROFISSIONAIS DA SAÚDE, QUAL FOI O CRESCIMENTO DO QUADRO NO INÍCIO DA PANDEMIA? 

Antes da Pandemia tínhamos em torno de 1.350 colaboradores diretos e indiretos. Atualmente, somos mais de 2.000 profissionais. Sem dúvida alguma isso gera um impacto financeiro, no entanto, é importante lembrar que esse custo é composto não somente por profissionais, mas também por insumos, EPIs, medicamentos e manutenções.

QUAIS SERVIÇOS FORAM MAIS AFETADOS NA PANDEMIA?

Infelizmente todos os serviços foram de alguma forma afetados, uma vez que nos deparamos com a necessidade de, em tempo recorde, nos prepararmos para atender uma doença completamente desconhecida até então. A captação de órgãos (sobretudo de córneas) foi infelizmente afetada, principalmente por orientação do próprio Ministério da Saúde.

Escrito por André Costa/Diário do Nordeste


 

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