Plantio, açudes ou queimadas? Saiba para que estão servindo as chuvas de 2022 no Ceará

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Legenda: O Açude Castanhão tem sido beneficiado com os bons volumes pluviométricos deste ano. O reservatório mais que dobrou de volume armazenado quando comparado ao início de 2022 - Foto: Wandenberg Belem

Açudes, agricultura, garantia hídrica de abastecimento? Precipitações beneficiam vários eixos

Recorde atrás de recorde. Os meses de 2022 vão passando e o ano segue a acumular bons números pluviométricos com quebra de marcas importantes. São diversas neste trimestre inicial da quadra chuvosa no Ceará.

Fortaleza em 4 meses já superou todo o volume médio esperado para o ano; a cidade de  Várzea Alegre conquistou o melhor acumulado - em também somente 4 meses - dos últimos 33 anos; o Açude Castanhão mais que dobrou de volume neste quadrimestre e o número de reservatórios sangrando se aproxima de 40.

São marcas robustas. Recordes pulverizados. E a certeza de que 2022 já caminha para entrar em um seleto grupo de anos com os maiores índices pluviométricos da última década. Mas, na prática, qual a relevância destes volumes pluviométricos?

Além da possibilidade de garantia do abastecimento de água, do aporte de vários açudes, a cultura do arroz é um exemplo de área que tem sido beneficiada com as precipitações deste ano no Ceará. Outra cultura que está em alta diante das boas chuvas é a do feijão.

O titular da Secretaria de Recursos Hídricos do Estado (SRH), Francisco Teixeira, explica que existem diversas formas de analisar os números. A primeira delas é a espacialidade dos índices.

Não é benéfico para o Estado ter grandes volumes de forma espaçada. Ele explica que o mais adequado, tanto para a agricultura, como para a recarga dos açudes, é que a chuva seja contínua e banhe mais regiões.

Legenda: Fortaleza já superou todo o volume de chuva esperado para o ano de 2022 - Foto: Thiago Gadelha

Quando há chuvas espaciais, aquelas que caem de forma intensa em uma curto espaço de tempo e espaço territorial diminuto, os indicadores até são inflados, mas, na prática, não trazem grandes benefícios para o Estado, pelo contrário, geram prejuízos, como ocorreu em Várzea Alegre com perda de 80% da agricultura e famílias desabrigadas e desalojadas. 

Cenário exige atenção

O diretor de Operações da Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh), Roberto Bruno Moreira Rebouças, acrescenta, no entanto, que a irregularidade das chuvas, em espaço e tempo, ainda que não esteja sendo observada neste ano, "é o mais normal para o Ceará por estarmos no Semiárido".

"O normal são chuvas mais limitadas. A última crise hídrica no Estado começou em 2012 e se estendeu até 2018, ano em que as bacias começaram a ganhar aporte. Hoje os níveis estão bons, mas ainda longe de estarmos em situação confortável", alerta Bruno.

Essa ressalva, conforme explica Rebouças, reside no índice atual dos açudes (37,2%). "Os açudes do Norte do Estado acabam elevando a média estadual. Mas, ainda há açudes importantes com pouco aporte, como é o caso do Banabuiú [o terceiro maior do Estado] e de outros do Sertão Central", pontua.

O diretor de Operações da Cogerh reconhece que a quadra chuvosa deste ano concentra bons volumes, mas sugere que o estado de atenção seja mantido. "Preservar o uso racional da água é preciso. Açudes com menos de 30% estão numa classificação ainda de alerta, não há tranquilidade, ainda que o cenário esteja bem melhor", conclui.

Legenda: Expectativa é de uma boa colheita neste ano, no Ceará - Foto: Antonio Rodrigues

Mais de 40 açudes já sangraram neste ano. Atualmente, são 34 nesta condição (confira lista ao fim da matéria) e outros 11 estão com volume de armazenamento acima dos 90%. Os três maiores aportes hídricos foram no Castanhão, com 1 bilhão de metros³ aportado; Orós, com quase 600 milhões de m³; e o açude Araras, cujo aporte está em cerca de 300 milhões de m³.

Agricultura comemora bons índices 

Diante da ausência dessa irregularidade das chuvas, conforme destacou Rebouças, a agricultura tem se beneficiado. O gerente local da Ematerce de Iguatu e Quixelô, Erivaldo Barbosa, aponta que, no Centro-Sul, "a colheita caminha para bons números".

"Já choveu mais de 1.500 milímetros em nossa região [Centro-Sul]. É um bom índice e, além disso, as chuvas têm sido, em sua grande maioria das vezes, bem distribuídas. Em Iguatu, tivemos um período de cerca de 10 dias sem chuva no início da quadra, mas, de modo geral, as precipitações não estão irregulares, o que é muito bom para a agricultura", detalha. 

A cultura do arroz, que esteve em baixa no Centro-Sul ao longo de quase dez anos (2012-2018), voltou a ganhar força. Erivaldo explica que o arroz necessita de um bom volume de água para se desenvolver. "Neste ano deveremos ter uma boa colheita", pontua Erivaldo.

Aliado aos bons índices, a Ematerce tem prestado assistência técnica aos agricultores no sentido de orientá-los a escolher a cultura mais adequado para determinado solo e região e saber a hora exata de plantar.

"A tecnologia aplicada ao campo rende bons números. Em uma área de 1 hectare onde se colhe 3 mil kg, podemos elevar a produção para 17 mil kg. Hoje, diante dos acompanhamentos técnicos e orientação, já chegamos a 9 mil kg/ha, mas ainda podemos ir bem além", concluir Erivaldo Barbosa.

Queimadas em baixa

Além de beneficiar agricultura e gerar recarga aos açudes cearenses, as chuvas têm tido participação direta na redução na quantidade de incêndios registrados no Ceará.

Os primeiros meses do ano registraram o menor número de focos de incêndios florestais da última década. De janeiro até o dia 12 de maio, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) contabilizou 69 queimadas, sendo apenas 2 neste mês de maio e uma em abril.

Desde quando começou o monitoramento do Inpe, em 1998, a menor quantidade de queimadas nos primeiros cinco meses do ano foi registrada no ano 2000, com apenas 41 incêndios florestais. Até agora, 2022 possui o segundo menor número da série histórica. 

De acordo com a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), já choveu o acumulado médio de 710 mm, ou seja, faltam apenas 11,8% para que a normal climatológica anual (800,6 mm) seja atingida.

Caso isso aconteça - e a tendência é de que este patamar seja rompido ainda neste mês de maio - o ano de 2022 se igualará a 2020 e 2019 como os únicos que superaram a média histórica anual nos últimos dez anos. Neste milênio, apenas 7 vezes a normal climatológica foi superada:

  • 2020: 958.6mm, 19.7% acima da média
  • 2019: 841.2mm, 5.1% acima da média
  • 2009: 1.218,4mm, 52.2% acima da média
  • 2008: 925.5mm, 15.6% acima da média
  • 2004: 1.041,8mm, 30.1% acima da média
  • 2003: 837.9mm, 4.7% acima da média
  • 2002: 820.4mm, 2.5% acima da média

Açudes atualmente sangrando:

  • Acaraú Mirim
  • Ayres de Sousa
  • Jenipapo
  • São Vicente
  • Sobral
  • Muquém
  • Pau Preto
  • Angicos
  • Diamantino II
  • Gangora
  • Itaúna
  • Tucunduba
  • Várzea da Volta
  • Frios
  • Itapajé
  • Gameleira
  • Mundaú
  • Poço Verde
  • Quandú
  • Acarape do Meio
  • Amanary
  • Aracoiaba
  • Batente
  • Cauhipe
  • Gavião
  • Germinal
  • Itapebussu
  • Pacajus
  • Tijuquinha
  • Junco
  • Olho d'Água
  • Rosário
  • Barragem do Batalhão

Escrito por André Costa/Diári do Nordeste

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