Museu Orgânico Casa de Telma Saraiva: a história da fotografia no Cariri

Este é o primeiro museu orgânico que faz uma homenagem póstuma a uma personalidade do Ceará. — Foto: divulgação

A edificação da década de 1926 salvaguarda o legado e o pioneirismo da artista cearense

Para manter vivo o legado e a memória de mestres, artistas e personalidades da história cearense, o Sesc Ceará, em parceria com a Fundação Casa Grande, inaugura o 8º Museu Orgânico na região do Cariri, no dia 13 de novembro, às 16h, durante a 23ª Mostra Sesc Cariri de Culturas. Trata-se de uma homenagem que preserva e eterniza a importância da artista, foto-pintora e fotógrafa, Telma Saraiva, precursora na arte da fotografia pintada à mão desde a década de 40 na cidade do Crato. Este é o primeiro museu que faz uma homenagem póstuma a uma personalidade do Ceará.

O projeto dos Museus Orgânicos, segundo Alemberg Quindins, gerente de cultura do Sesc Ceará, tem como principal premissa estabelecer vínculos entre patrimônio material e imaterial justamente onde essa tradição pulsa e está enraizada: em suas moradas. “As casas se constituem em lugares de memória e de afeto, assim, tudo o que está ali marca a história daquele território, inclusive os moradores, suas vestimentas, fotografias, objetos, instrumentos e tudo aquilo que marca o cotidiano de mestres e artistas”, afirma. Com a proposta de reunir 17 museus em uma rota de preservação da cultura e suas manifestações, de maneira orgânica, o projeto também tem a missão de fomentar o turismo social.

Ao longo dos anos, a família de Telma Saraiva já havia iniciado uma curadoria entre as obras, instrumentos de trabalho e pertences pessoais da artista para montar um acervo que conta uma história de mais de 100 anos de fotografia no Cariri. Agora, o desejo que a mãe tinha de preservar sua memória recebe continuidade com os filhos a partir do projeto Museus Orgânicos do Sesc Ceará. “Uma das coisas que minha mãe tinha mais prazer era receber as pessoas aqui na sua casa e mostrar seus objetos. Quando vinham fazer fotografias, percorriam todo o espaço da casa até chegar ao estúdio, era como uma visita pela história da fotografia”, conta Ernesto Rocha.

Além do material já conhecido das pessoas que frequentavam a casa, o público também irá conhecer objetos inéditos de bastidores como laboratório de negativos, vários tipos de câmeras e entre elas a primeira câmera utilizada pelo pai de Telma no início do século XX. “É diferente de um museu comum porque aqui a oratória de quem está recebendo é que vai ser o encanto e vai fazer as pessoas viajarem no tempo e no legado da família”, explica Ernesto que mora ao lado da casa da mãe, como se fosse uma extensão do espaço, e irá receber os visitantes também em seu Café. “As pessoas vão sair da casa de Telma Saraiva e vão continuar vivenciando a sua história nesse outro ambiente que é uma morada de conteúdo, uma arquitetura de afeto”.

  • Um olhar de gerações

Uma edificação no estilo Art Déco, datada de 1926, faz parte da arquitetura histórica da cidade do Crato. Ali está situado o Museu Orgânico Casa de Telma Saraiva que outrora presenciou grande fluxo de pessoas a serem fotografadas, durante décadas, na região do Cariri. O contato com a arte da fotografia chegou à família Saraiva ainda no século XX, com a popularização da prática e a paixão do patriarca, Júlio Saraiva, dono do ateliê Photo Riso.

A homenageada, Maria Telma Saraiva da Rocha, nasceu em 14 de julho de 1928, já imersa na fotografia, cresceu diante de câmeras e refletores e, na adolescência, desenhava com destreza e realismo a lápis. Sendo o Crato um dos primeiros municípios do interior a ter cinema, em 1911, o lugar proporcionava uma aproximação do público com a arte da imagem que, mais tarde, entrou na vida de Telma e a fez se apaixonar pelas imagens das mulheres divas daquelas narrativas.

Aos dezesseis anos, em 1944, começou a pintar suas fotografias e as de suas amigas, depois de ver na revista A Scena Muda, lançada no começo dos anos 20. Em busca do acabamento perfeito, também fez experimentos com aquarela e outros tipos de tinta. Aos 20 anos, em 1948, casou-se com o artista plástico e fotógrafo Edilson da Rocha. Depois de casada, continuou a morar na casa dos pais. Emerge ainda mais no meio fotográfico, seu esposo fazendo fotografias sociais, em festas e acontecimentos da cidade e ela recebendo as crianças, clientes do Photo Riso, para fotografar no seu jardim. É quando o Foto Saraiva se implanta dentro da casa de Telma.

Após ganhar uma câmera instantânea de um amigo, Telma começa a se dedicar ao ofício. Quando os filhos nascem, Ricardo, Roberto, Edilson Filho, Edilma e Ernesto, a artista segue os passos do pai, fotografando a nova geração, e vai além, faz pinturas com produções inusitadas, com objetos e bichos que tinha em casa. Essas fotografias de sua família eram seu portfólio, dentro da sua casa, uma imensa galeria de fotografias em preto e branco pintadas a mão, com o maior grau de perfeição. Todas assinadas, Saraiva Crato, a bico de pena e tinta.

  • Uma vida dedicada à arte

Dos anos 1950, até o começo dos anos 2000, Telma Saraiva fotografou artistas, toda uma sociedade, políticos, o clero, estudantes em conclusão de cursos, as Misses e ela mesma. Sempre que estava bem produzida, elegante, se fotografava, com ajuda de espelhos e cabo propulsor que disparava a câmera à distância. E muitas delas eram com as fantasias que ela mesma fazia para brincar o carnaval, inspiradas nas histórias, nas divas que via no cinema, nas fotografias postais que vinham no sabonete Lever. A coleção dos autorretratos pintados, que em uma época viveu nos álbuns e paredes da sua casa, ganharam o mundo.

Por volta de 2005, Telma deixa a fotografia por motivo de diagnóstico alérgico, em pleno advento da chegada da fotografia digital no Brasil. Para a artista, o novo sistema eletrônico fazia tudo.

Seu legado é percebido por muitos colecionadores, instituições, curadores e pesquisadores. Em 2006, com sua arte reconhecida em galerias de arte nacional, Telma aparece na Pinacoteca de São Paulo. Na galeria Estação, também em São Paulo, em 2008, Telma é vista nos seus últimos retratos inspirados nas fotos de Marilyn Monroe, que estariam na mesma exposição.

Uma mulher à frente de seu tempo e sensível às artes, Telma criou um patrimônio material e imaterial. Numa época em que as mulheres eram, em grande maioria, dependentes dos maridos, Telma era totalmente diferente, segundo relato do filho Ernesto Rocha. "No interior as pessoas falavam assim: ‘Ali é dona Fabiana de seu Antônio, dona Marli de seu Roberto’. E na minha casa era o contrário, seu Edilson de dona Telma, porque ela era a pessoa que comandava a casa, que tinha seu próprio trabalho e foi a responsável por construir seu patrimônio, criar seus cinco filhos. Ela é uma referência de mulher empreendedora e, tudo isso, através da arte, da câmera fotográfica e dos pincéis”, afirma.

Em 2007, foi reconhecida pelo Instituto Cultural do Cariri (ICC) como imortal, recebendo a Cadeira de número 14, da qual seu pai é patrono. Em 2015, com 86 anos, ela faleceu, sabendo que suas fotografias foram além do que seu rico bom humor e sua criatividade pudessem ver e sonhar.

Os retratos de Telma, sua vida, seu comportamento diante o pioneirismo da mulher trabalhando com fotografia, é caso de pesquisas, trabalhos científicos, teses de mestrados e doutorados, filmes e de exposições que acontecem com o seu arquivo tão vigoroso.

O Museu Orgânico Casa Telma Saraiva salvaguarda a história da fotografia no Cariri. Com a trajetória do seu trabalho, é possível entender o princípio da luz, das cores, da alteridade e da representação do indivíduo. O retrato imperecível que ganha poder com o passar do tempo, e muitos e muitos retratos de Telma, ainda estão em centenas de casas pelo Cariri, isso atesta a força do seu trabalho e dedicação à imagem.

  • Inauguração Museu Casa de Telma Saraiva
  • Data: 13/11 às 16h
  • Local: Crato - CE

Programação Completa: Site www.mostrasescdeculturas.com.br e no aplicativo de celular “Mostra Sesc Cariri”, disponível para Android e iOS

Acesso: Nos espetáculos e apresentações em lugares fechados é necessária a doação de 2 kg de alimentos não perecíveis a serem trocados pelo ingresso, mediante apresentação de cartão de vacinação ou teste negativo de Dovid-19.

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