Segurança pública domina debate político no Ceará e antecipa clima para sucessão estadual em 2022

 

Legenda: Pauta da segurança pública domina debate político no Ceará em ano de véspera de eleição estadual em 2022 - Foto: Thiago Gadelha

Opositores e aliados do Governo do Estado têm travado embates nas redes sociais e nas Casas Legislativas sobre a problemática da violência

O tema da segurança pública tem dominado a cena política no Ceará. Opositores do Governo do Estado apontam, de um lado, falhas no combate às facções criminosas e, do outro, aliados apontam influência de lideranças políticas na desorganização da tropa com fins eleitorais. O embate entre os grupos políticos já antecipa o tom da campanha eleitoral para sucessão do governador Camilo Santana (PT) em 2022.

Na Assembleia Legislativa e Câmara Municipal de Fortaleza, o debate sobre a política de segurança pública do Estado tem voltado com força, principalmente em relação à atuação das facções criminosas.

EMBATES

Na semana passada, o deputado estadual Soldado Noélio (Pros) levou flores para a tribuna da Assembleia, para rebater críticas do governador Camilo Santana à oposição.

O governador chamou a oposição de "raivosa" e "intolerante" durante um evento em Fortaleza, em meio à onda de críticas disparadas por opositores ao combate à criminalidade.

Camilo, inclusive, tem criticado, reiteradas vezes, informações falsas divulgadas por adversários nas redes sociais sobre o Governo. 

Soldado Noélio, por sua vez, rebateu a fala do governador e cobrou dele ações mais enérgicas contras organizações criminosas no Estado. 

Dias antes, o deputado federal Capitão Wagner (Pros), líder da oposição no Ceará, fez uma transmissão nas redes sociais, falando sobre a violência e chamando o governador para um debate público sobre o assunto. 

MOTIM 

O secretário de segurança do Estado, Sandro Caron, entrou no debate e respondeu às críticas de Capitão Wagner, afirmando que as facções estavam destruídas e voltaram a se organizar após o motim da Polícia Militar (PM), ocorrido no Ceará em 2020. 

O titular da Pasta ainda acusou Wagner de incentivar o movimento ilegal de paralisação da PM.

A fala do secretário de segurança acirrou os ânimos. Opositores questionaram o trabalho realizado por Caron, enquanto aliados do Governo defenderam os resultados apresentados pela Secretaria e os investimentos que o Estado vem fazendo na área da segurança.

Além disso, integrantes da base governista frisam que o problema da segurança também é responsabilidade do Governo Federal.

O ex-prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio (PDT), um dos cotados no partido como pré-candidato à sucessão de Camilo Santana, também entrou no circuito, criticando a conduta de Capitão Wagner. Ele e Wagner foram adversários nas eleições para a Prefeitura de Fortaleza em 2016. 

VÉSPERA DE ELEIÇÃO

O debate sobre a violência no Estado volta à tona sempre em véspera de eleição. Em 2018, quando o governador Camilo Santana foi reeleito, adversários como o então candidato General Theophilo (PSDB) tinham a segurança como uma de suas principais bandeiras de campanha. 

Agora, em novo ano pré-eleitoral, o tema domina os debates novamente. Para o cientista político e professor universitário Cleyton Monte,  pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia da Universidade Federal do Ceará (Lepem-UFC), os ataques da oposição nesse campo não são aleatórios.

"A oposição ao governador tem uma base militarizada. O Capitão Wagner ataca a política de segurança, mas, tendo o seu nome diretamente ligado ao motim, isso pode se voltar contra ele. A oposição está tentando buscar um caminho e o domínio das facções é o caminho de apontar falhas na política de segurança".

CPI

Cleyton Monte lembra, por outro lado, que uma das estratégias do grupo governista é a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) instalada na Assembleia Legislativa para investigar o envolvimento das associações militares no motim da PM.

A CPI aguarda documentos e informações solicitadas ao Governo do Estado e outros órgãos sobre os repasses feitos por profissionais da segurança pública às entidades para apurar a suspeita de uso de verbas na paralisação - que é proibido, porque as associações só podem ter atuação recreativa, e não sindical.

A CPI ainda está no estágio inicial da investigação, mas, para Cleyton Monte, pode ser um trunfo dos aliados do Governo.

"A ideia é que, a partir dessa CPI, você possa tirar uma série de evidências, que possa resgatar o debate sobre os motins e, ao resgatar o debate, possa trazer fatos novos para atacar a oposição", analisa.

PREJUÍZOS NO DEBATE

O pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência da Universidade Federal do Ceará (LEV-UFC), Ricardo Moura, avalia que a pauta da segurança vem sendo politizada desde 2011 e que isso prejudica a busca real por soluções para minimizar o problema.

"Tornou-se difícil discutir estratégias, ações, fazer uma avaliação de política nessa área sem que isso seja politizado a favor ou contra o Governo (do Estado). Isso é prejudicial, porque a segurança necessita de políticas que vão além de um governo, ou seja, políticas de Estado. Uma alternativa para sair dessa situação é estabelecer um pacto que vise superar a questão partidária", sugere.

Por outro lado, Ricardo pensa que nem todas as críticas devem ser descartadas. "Eu acho que essa é a chave para o que vem. Tentar identificar nesses discursos o que é localizado no político e o que são sinais do que a categoria (de militares) está pensando. Não acredito que todas as críticas devem ser desconsideradas, mas que devem ser analisadas".

Escrito por Letícia Lima/Diário do Nordeste

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