Projeto monitora qualidade da água do Castanhão para evitar mortandade do pescado

Legenda: O engenheiro de pesca Édson dos Reis Souza é quem faz o monitoramento diário do Castanhão, em vários pontos - Foto: Honório Barbosa

Ação do projeto Águas do Nordeste monitora parâmetros de oxigênio, temperatura, pH e transparência, orientando os piscicultores

Um trabalho inovador e fundamental para evitar a mortandade de pescado no maior parque aquícola do Ceará, o Castanhão, está em curso há quatro meses. O objetivo é evitar o pesadelo que assusta os piscicultores nos meses de abril a junho, desde 2015, com o monitoramento dos níveis de oxigênio, pH, temperatura e transparência da água.

Havia pelo menos seis anos que os produtores de tilápia em tanques-redes esperavam um serviço de medição dos parâmetros de qualidade da água. “Ainda bem que agora temos orientação e acompanhamento diário”, pontuou o piscicultor Francisco Lopes.

O projeto Águas do Nordeste, de âmbito federal, está em curso no Castanhão por meio do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar). O engenheiro de pesca Édson dos Reis Souza é quem faz o monitoramento diário – de segunda a sábado.

Damos apoio técnico e gerencial, identificamos dificuldades, e vimos que a demanda para monitorar a qualidade da água era grande entre os piscicultores. Fazemos análise da qualidade da água e damos aviso preventivo aos piscicultores”

ÉDSON DOS REIS SOUZA

Engenheiro de pesca

AVALIAÇÃO DOS PISCICULTORES

A ideia inicial era atender a um grupo de 30 produtores, mas os demais criadores de tilápia passaram a integrar uma rede social que foi montada para divulgação e acompanhamento dos parâmetros da água. “A leitura dos indicadores é feita pela manhã, em vários pontos dos parques aquícolas. A divulgação é feita logo em seguida”, explicou Souza.

O piscicultor Laudo Clementino está com 18 gaiolas e seis mil pescados em crescimento. Antes na crise da mortandade elevada, em 2015, ele criava, em 35 gaiolas, 18 mil pescados.

Sem saber realmente como está o nível de oxigênio, só no olho, não tem como a gente ter certeza se vai ou não ocorrer a mortandade. Por isso, é importante uma informação correta, feita com equipamentos”

LAUDO CLEMENTINO

Piscicultor

Há dez dias, houve uma queda no nível de oxigênio, que chegou ao limite de 3 mg/litro, e os piscicultores ficaram preocupados. Um deles, Márcio Oliveira, recebeu a orientação em tempo hábil e fez a mudança das gaiolas para outra área do açude em condições mais favoráveis, evitando a morte do pescado.

Os níveis de oxigênio devem variar entre 3mg/l e 15mg/l. O ideal é que fiquem entre 5mg/l e 7mg/l.

Quem também agiu e evitou a morte dos peixes que estão nas gaiolas em fase de crescimento foi Carlos Freire. “Não alimentei o pescado pela manhã porque recebi a informação da queda de oxigênio e fiquei de prontidão para deslocar as gaiolas, mas ainda bem que não foi necessário”.

Édson Souza lembra que os piscicultores acolheram o projeto de braços abertos e até colaboram com a logística do serviço fornecendo combustível, às vezes, para o deslocamento do barco entre as áreas de criação.

“Todos estão mais confiantes e apoiando o nosso trabalho, dando um pouco que tem para manter a produção e a renda mesmo em patamares reduzidos em comparação com o passado”, disse Édson Souza. “Eles fazem as manobras recomendadas e passaram a criar menor quantidade de peixe, nas gaiolas, nos meses de maior risco (abril a junho)”.   

A titular da secretaria de Desenvolvimento Econômico e Turismo de Jaguaribara, Lívia Barreto, lembrou o risco de ocorrer uma nova mortandade há cerca de dez dias e reforçou a necessidade do monitoramento diário da qualidade da água. “Ainda bem que neste ano temos esse projeto”, pontuou.

Legenda: O projeto Águas do Nordeste, de âmbito federal, está em curso no Castanhão por meio do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) - Foto: Honório Barbosa

MORTANDADES

A mortandade de pescado tem sido um problema sério desde 2015 e se agravou com a perda de volume de água no reservatório, afetando a atividade, a renda dos produtores e a economia local.

Sem ter como reagir, o produtor Francisco Lopes assistiu em uma só manhã de junho de 2015 a morte de 100 mil peixes, nos tanques-redes no açude Castanhão. “Tive um prejuízo de 400 mil reais”, lembrou. “Hoje só estou criando cinco mil tilápias em 20 gaiolas e com muita dificuldade”.

Naquele mês, o maior parque aquícola do Ceará registrou a mortandade de três mil toneladas de tilápia. Foi um recorde. Nos três anos seguintes, o problema se repetiu. A causa, segundo os técnicos: queda do nível de oxigênio.

Cerca de 500 piscicultores tiveram prejuízo naquele ano, e a atividade sofreu perda de 90%.

PRODUÇÃO DE TILÁPIA NO CASTANHÃO

A produção de tilápia teve início no açude Castanhão em 2004, após o reservatório registrar a primeira cheia total.

De lá até 2015, a produção foi crescente e se tornou referência como polo produtivo no Ceará. Em 2012 o Castanhão já estava entre os maiores produtores no Brasil. Liderou o ranking em 2013 como maior produtor nacional, quando alcançou a produção de pouco mais de 22 mil toneladas.

Cerca de duas mil famílias foram beneficiadas com empregos diretos e indiretos. Após as três grandes perdas (2015, 2016 e 2019), a produção foi praticamente dizimada. “Os piscicultores ficaram sem renda e com dívidas nos bancos decorrentes de financiamentos, até hoje”, observa a secretária Lívia Barreto.

Atualmente, o Castanhão tem uma produção minúscula, em torno de 300 toneladas/mês, com um número bem pequeno de produtores, em torno de 40, em atividade.

Escrito por Honório Barbosa/Diário do Nordeste

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